"E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo." 2 Co 12:9 ... O que seria esse "poder" a que Paulo se refere? Não é poder para ser curado, certamente.
Essa é a "chave de ouro" para entender a diferença entre o poder do mundo (que busca domínio e exibição) e o poder de Cristo.
Quando Paulo escreve isso, ele está justamente vindo de uma oração onde pediu para ser "curado" (o espinho na carne). A resposta de Deus é um "não", mas um "não" acompanhado de uma revelação profunda sobre a natureza desse poder.
O poder de Cristo a que Paulo se refere pode ser entendido em três dimensões:
1. Poder de Sustentação (Resiliência)
Não é o poder que remove a tempestade, mas o que mantém o barco inteiro dentro dela. É a capacidade sobrenatural de permanecer firme, em paz e com alegria, mesmo quando as circunstâncias ao redor (doença, perseguição, luto) dizem que você deveria desmoronar. É a graça que basta.
2. Poder de Transformação de Caráter
O poder de Deus se manifesta na fraqueza porque, quando reconhecemos que não temos força própria, paramos de confiar na nossa autossuficiência.
Na força humana, há orgulho.
Na fraqueza dependente de Deus, há humildade.
O poder de Cristo é a força que nos torna parecidos com Ele: mansos, pacientes e amorosos, algo que a nossa "carne" jamais conseguiria produzir sozinha.
3. Poder de Manifestação da Glória de Deus
Imagine um vaso de barro rachado com uma luz dentro. A luz brilha mais forte justamente através das rachaduras.
Se Paulo fosse um super-homem, rico e saudável o tempo todo, as pessoas diriam: "Ele é incrível". Mas, como ele era frágil, as pessoas olhavam para ele e diziam: "Como ele aguenta isso? Só pode ser Deus". O poder de Cristo é essa evidência da presença divina que fica clara quando o suporte humano falha.
O Contraste com a Prosperidade
Enquanto a teologia da prosperidade busca o poder para eliminar a fraqueza, Paulo busca o poder para habitar na fraqueza.
O poder de Marcos 16:17 é para o avanço do Reino.
O poder de 2 Coríntios 12:9 é para a edificação do espírito.
É o poder de dizer: "Eu não posso, mas Ele pode em mim". É a força para ser fiel no ordinário mais difícil de todos: o sofrimento.
Você diria que esse "poder na fraqueza" é o que realmente diferencia o discípulo de um simples consumidor de milagres?
Quando os discípulos de Jesus voltaram maravilhados porque viam que até os demônios se lhes submetiam,Jesus disse que o verdadeiro motivo da alegria deveria ser porque os seus nomes estavam escritos no Livro da Vida.
Essa passagem em Lucas 10:17-20 é o "balde de água fria" mais pedagógico que Jesus já deu. Ele redireciona o foco do fazer (o poder, o extraordinário) para o ser (a identidade, o ordinário da graça).
O que Jesus estava ensinando ali é fundamental para a nossa conversa:
1. O Perigo da Adrenalina Espiritual
Os discípulos voltaram "cheios de alegria" porque o sobrenatural é viciante. Ver demônios se submetendo traz uma sensação de domínio e importância. Jesus percebeu que eles estavam deslumbrados com o instrumento (o poder dado a eles) e não com a Fonte ou com o Propósito.
2. O Poder é Circunstancial, a Salvação é Eterna
Expulsar demônios ou curar são eventos que acontecem "no caminho". Eles podem ocorrer hoje e não ocorrer amanhã (como vimos no caso do "espinho" (como vimos no caso do "espinho" de Paulo). Se a sua alegria depende do extraordinário, sua fé será uma montanha-russa:
Se o milagre acontece: "Deus me ama, sou poderoso!"
Se o milagre não acontece: "Onde está Deus? O que fiz de errado?"
Ao dizer "alegrem-se porque seus nomes estão escritos no céu", Jesus está ancorando a alegria deles em algo que não muda, algo que é puramente graça e não mérito ou performance espiritual.
3. A Identidade acima da Utilidade
No mundo (e na teologia da prosperidade), você vale o que você produz ou o poder que demonstra. No Reino de Deus, você vale porque é filho.
Poder é sobre o que você pode fazer.
Livro da Vida é sobre a quem você pertence.
O "poder que se aperfeiçoa na fraqueza" (de Paulo) e o "nome escrito no céu" (de Lucas 10) convergem no mesmo ponto: a maior glória do cristão não é ser um agente do sobrenatural, mas ser um objeto da misericórdia de Deus.
É curioso notar que, no julgamento final (Mateus 7:22-23), Jesus menciona pessoas que dirão: "Em teu nome expulsamos demônios", e Ele responderá: "Nunca vos conheci". Isso prova que o extraordinário pode acontecer sem que haja relacionamento.…

Comentários
Postar um comentário